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terça-feira, 26 de junho de 2012

Como escrever um livro?

Olá, primeiro gostaria de pedir desculpas por não ter postado nada no domingo passado.
Mas hoje trago a vocês a opinião de um escritor, Amilcar Bettega, sobre como se escreve um livro, espero que gostem! (foi retirado do site: http://terramagazine.terra.com.br/):

Num destes totens cheios de anúncios de filmes, peças de teatro, programas culturais e outros papéis do gênero, recolho o folheto de uma oficina de escrita. Um dos cursos propostos traz o título "Como escrever um livro?". Na verdade, o título é esse mas sem a interrogação - só num segundo momento eu me dei conta que li uma interrogação onde havia uma afirmação. Mas deixo assim, porque não quero falar da tal oficina em particular, que não conheço. Nem das oficinas num sentido genérico, como prática de abordagem dos assuntos relativos à escrita e à literatura. Tenho minha opinião a respeito e adianto a quem quiser saber que no embate feroz que se trava entre os defensores e os detratores das oficinas literárias eu me coloco de maneira clara e firme entre os primeiros. Mas repito, não é isso o que me interessa aqui, e sim esta interrogação que aparece (pelo menos para mim ela aparece) no título: como escrever um livro?
Sou um escritor que escreve pouco, muito pouco. Escrevo devagar, a custo, como que puxando a forceps. Nenhum dos livros que fiz até agora necessitou menos de quatro anos de trabalho. E olha que são livros curtos, com pouco mais de uma centena de páginas cada.
Claro que a experiência da escrita é sempre única, e a minha ou a de qualquer outro não pode servir de parâmetro para ninguém. Mas ela, a minha experiência, é só o que tenho, e é a partir dela que me permito refletir sobre como fazer um livro.
Até hoje escrevi e publiquei três livros de contos. E neste momento, após quatro anos e meio de trabalho, sinto que me aproximo do fim de um romance. Nos livros de contos, por se tratarem de um conjunto de textos autônomos, fica mais difícil observar como o livro toma forma. Mas no romance, um longo texto inteiramente articulado (ou que requer algum tipo de articulação), é fascinante observar como se constrói, a partir de elementos bastante frágeis, essa peça que muitas vezes exibe uma complexa arquitetura narrativa.
Mas o que me surpreende a cada vez que tento olhar de fora e da maneira mais honesta possível para o meu próprio trabalho (ou para a sua construção) é a impressão de que um livro se faz meio sozinho. É como se ele fosse um organismo vivo, que cresce, toma forma, se desenvolve tanto interna quanto externamente, tudo isso um pouco à parte de seu autor.
Não tenho dúvida, por exemplo, que cada livro tem o seu tempo para ficar pronto. Não adianta eu dizer que vou me separar do mundo durante seis meses e trabalhar dezoito horas por dia para escrever um livro. Se ele precisa de três, quatro anos, ele não sairá antes de três, quatro anos. A literatura é uma arte da paciência. Paciência, obstinação e certo orgulho, segundo António Lobo Antunes. São com estes atributos, ele diz, que os escritores fazem os livros. Não estou bem certo se são estas três qualidades (ou defeitos) que o escritor português lista, e tenho preguiça agora de ir verificar. Se não são estas, são outras bem parecidas. Mas estas me servem.
É preciso ter paciência, dar tempo ao livro, todo o tempo de que ele necessita. E persistir, achar forças para continuar mesmo quando não se vê nada no horizonte. E sobretudo ter orgulho do que se está fazendo - eu diria mesmo alguma dose de presunção para achar que aquilo que criamos pode interessar e até ser importante para os outros. Ninguém pede a um escritor que ele escreva (pelo menos não no início, quando ele não é ainda um "escritor", alguém que publica e, teoricamente, tem um público leitor), ninguém cobra dele que faça o seu trabalho, ninguém lhe garante que o que ele está escrevendo vai ser lido, muito menos publicado e menos ainda que vai ser remunerado pelas horas de trabalho. E ainda assim o cara escreve. Paciência, orgulho, obstinação. Birra, burrice, doença, por aí vai.
Mas acho que me desvio. O que eu queria era dizer que agora, ao me aproximar do fim de um livro e olhar para aquele monte de páginas e ver que ali está uma narrativa concatenada, um texto que pode ser lido e fazer algum sentido para pessoas que não conheço e que não têm nada a ver comigo, e que, principalmente, quase tudo que ali está me é tão estranho a ponto de eu ler como se fosse de outro, eu não posso deixar de me espantar de como isso se dá, e de concluir humildemente que não se faz um livro - um livro se faz. Ao verificar os caminhos que a trama e a própria estrutura do livro tomaram, eu me dou conta que nunca poderia tê-los imaginado no momento em que iniciava a escrita. Certas cenas, certos personagens, que agora estão ali como elementos importantes para que a coisa fique em pé, me eram antes completamente inimagináveis. De onde vieram? Como surgiram?
Escrevo um livro escrevendo, ou seja, pego na caneta e saio escrevendo, sem esboços prévios de personagens, sem esquema da estrutura, das vozes narrativas, sem planejamento nenhum e sem ter, é óbvio, a mínima ideia de onde vou chegar (e se vou chegar). Parto de muito pouco, às vezes de uma frase, uma ideia, não raro uma imagem, mas nada mais do que isto. E saio escrevendo. Certo, no meu ritmo bovino, paquidérmico, me atolando na lentidão, mas vou botando uma palavra atrás da outra, porque não conheço outra maneira para se chegar ao fim de uma frase, de um parágrafo, de uma página, etc.
E creio ser por aí que a coisa passa. Como já disse outra vez, aqui mesmo neste espaço, quando uma frase é posta (construída, puxada, arrancada, etc.), dá-se o primeiro passo. O segundo (passo, frase) vai estar sempre vinculado ao primeiro, é parte dele, vem dali, da mesma essência. Justifica, completa, dá sentido: inventa. Assim, o segundo é também determinante do primeiro. Se não fosse a sequência, o início seria outro. Esta vinculação íntima, estas alimentações mútuas, estes movimentos de ida e volta é que encaminham o texto dentro de sua própria lógica. Uma lógica desconhecida do autor e a que ele só terá acesso escrevendo, apenas quando começa a escrever e tenta avançar, mesmo sem saber como nem para onde.
Uma palavra, depois outra, depois outra, na lógica e no ritmo próprios do livro. O papel do escritor é acreditar nisso, manter uma espécie de fé (não gosto dessas modulações religiosas, mas vá lá, não acho nada melhor agora: fé) na ideia de que pondo a frase no papel esta vai puxar a seguinte e a seguinte e o carro vai começar a andar. Um livro depende, portanto, deste esforço, desta entrega do escritor, mais do que da sua vontade e capacidade de criação.

         







Amilcar Bettega

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